Amizade de infância

04/03/16

Amizade de infância tem mesmo um sabor diferente, inigualável. Uma doçura permanente, com traços de pureza e toques de ingenuidade. Tem também um leve gostinho de traquinagem e uma pitada generosa de diversão. É feito café forte, marcante, que mesmo depois de engolido, ainda deixa seu gosto na boca. E faz querer sempre mais. Sabor igual não há!


Ter um amigo de infância é como vestir um sapato velho, surrado, que pode já não ser tão bonito por fora (e isso também pouco importa), mas é tão confortável, encaixa tão bem, é tão perfeito pra você... Tão perfeito a ponto de que, quando ele está perto, seja em qualquer lugar do mundo, lhe dá uma sensação tão boa de pertença, de que aquele é o seu lugar, de que está em casa. 

Amigos de infância não te apertam o calo, já conhecem seus defeitos de longa data e não se importam com eles. Também não causam bolhas inesperadas, pois você já os conhece tão bem que sabe o que esperar deles. Vestir um sapato velho, assim como estar com um amigo de infância, é puro aconchego.

Amizade de infância é um travesseiro fofo, macio, onde você deita a cabeça com a consciência tranquila, sem querer mostrar mais do que é, sem querer ser mais do que é. E que, além de tudo, lhe faz sonhar.

Amigos de outrora são como um velho par de óculos, com as pernas tortas e lentes grossas. Nem sempre se encaixam no rosto de maneira perfeita e, às vezes, esquecemos que eles estão conosco. No entanto, quando a vida nos embaça os olhos, eles estão lá pra clarear nossas vistas. E até para nos fazer lembrar, enxergar, quem realmente somos.

Amigo de infância é uma grande poltrona no meio da sala em que a gente pode vir correndo e se jogar sem medo, sem receio, sem nove horas. E ele o fará sentir-se abraçado (mesmo que distante), seguro (mesmo que esteja em apuros), acolhido (mesmo que você esteja se achando a pessoa mais sozinha do mundo) e pronto pra qualquer coisa nessa vida. Qualquer coisa!

Melanie Retz

Sobre a brevidade da vida

 

(recortes e rearranjos do texto original do filósofo grego Lúcio Aneu Sêneca)

2004

 

Pequena é a parte da vida que vivemos.

Pois todo o restante não é vida, mas tempo.

À exceção de muito poucos, a vida nos abandona em meio aos preparativos.

Não é curto o tempo que temos.

Mas dele muito perdemos.

 

Apressa-te a viver bem

 A vida é longa se a empregamos bem.

Mas quando ela se esvai no luxo e na indiferença,

Quando não a empregamos em nada de bom,

 

Sentimos que ela passou por nós sem que tivéssemos percebido.

O fato é o seguinte:

 

Não recebemos uma vida breve, mas a fazemos breve.

 

Alguns não definem para onde dirigir suas vidas,

E o destino os surpreende esgotados e bocejantes.

 

Faz o cômputo de tua existência.

Calcula quanto deste tempo foi perdido

Quanto gastaste em vão?

Verás que tem menos anos de vida do que contas

Compreendes que morres prematuramente?

Qual, pois, é o motivo?

Viveste como se fosseis viver para sempre

 

Nunca vos ocorreu que sois frágeis?

Não notais quanto tempo já se passou?

Vós gastastes o tempo como se ele fosse farto e abundante.

Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida?

 

Faz o cômputo dos dias da tua vida

Viveu por muito tempo?

Ou simplesmente foi por muito tempo?

Ninguém devolverá teus anos

 

Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá

Não há porque pensar que alguém tenha vivido muito por causa das rugas ou dos cabelos brancos

Pensaria ter navegado muito aquele que, tendo se afastado do porto, foi apanhado por violenta tempestade.

Errou pra cá e pra lá e ficou a dar voltas conforme a mudança dos ventos

Contudo, não saiu do lugar.

 Protelar é do maior prejuízo para vida

Arrebata-nos cada dia

Rouba-nos o presente ao prometer o futuro.

Aqueles que não vivem a vida, morrem tomados de pavor

Não como se deixassem a vida, mas como se ela lhes fosse arrancada.

Já aquele que não desperdiçou o seu tempo

Não hesitará em caminhar para a morte com serenidade e passo firme.

A vida é curta, mas suficiente para quem sabe aproveitá-la.

Pequena é a parte da vida que vivemos.

O restante não é vida, mas tempo.

 

Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é,
por si só, uma vida!

 

Adaptação: Melanie Retz (original Lúcio Aneu Sêneca)

Tem passagem pra Lua?

17/03/16

 Hoje eu queria uma passagem pra Lua. Voo direto, sem escalas. Lá, penso que a falta de gravidade me faria sentir mais leve e, talvez, mais forte: um esforço menor poderia me levar a um movimento bem maior. Com um pequeno impulso, uma grande viagem. Seria tão bom soltar o corpo e deslizaaaar. Curtir a inércia... Como o alívio de um longo e demorado suspiro.


Talvez eu não tivesse todo o controle do movimento em minhas mãos e ele saísse meio torto, elíptico ou espiral. Imprevisível. Mas, no fundo, isso seria bom. Seria mais tranquilo enxergar que nem tudo depende de mim e que, apesar do esforço, do empenho, da dedicação, nem sempre temos controle sobre as coisas. Seria bom poder culpar a falta de gravidade. Não ter que corrigir a rota. Dar um tempo na vontade de acertar. Isso tornaria os ombros mais leves, ventilados, exibidos, ficariam mais soltos tomando uma fresca na via láctea.


Seria bom me sentir como que flutuando, caminhar com passos largos, macios, leves. Pofff... Pofff... Quase como que saltitando com enormes pantufas ou pulando em um colchão inflável. Sem pressão, sem culpa, sem cobrança. Só seguindo...


Ficaria, literalmente, no mundo da Lua. Não precisaria remar contra a correnteza, não correria o risco de nadar, nadar e morrer na praia. Afinal, na Lua não tem mar, só flutuar.

Seria bom ficar sem nada pra fazer, observando a rotação da Terra. Lenta, constante, repetitiva. Sem a angústia de correr contra o tempo, de lutar contra ele a todo momento, de não dar conta das inúmeras tarefas, compromissos e afazeres.

Seria bom contemplar as estrelas, escutar meteoros, admirar chuvas cósmicas. Sem ansiedade, sem desespero. Se eu me sentisse sufocada, saberia ser pela falta de oxigênio e não pela afobação de tentar fazer e não dar conta. Simples assim.

Seria ótimo pegar carona na calda de um cometa, galopando sem medo do escuro, do desconhecido, da mesmice, da solidão ou de qualquer outro buraco negro.

E, depois, seria tão bom olhar tranquilamente pra Terra, admirar sua pequenez e ouvi-la dizer: "Respira, Melanie! Somos pequenos, mas capazes de coisas grandiosas. Temos um universo de possibilidades. Uma coisa de cada vez. Um passo de cada vez.
E volta pra Terra que aqui está  tudo que você ama!"
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Maternidade é o bicho!

27/05/16

A maternidade é um bicho esquisito. Sim, um bicho, e completamente esquisito. Às vezes, chega a ter 7 cabeças, indomável, e totalmente imprevisível. Em outras, um bicho doméstico, nada estranho, natural, que toma conta da gente espontaneamente, sem precisar de lições ou beabá.

FORA DO EIXO 
E esse bicho esquisito e ordinário começa nos fazendo perder o eixo, (ou mudar de eixo!). A barriga cresce enooorme, tenta nos fazer perder o equilíbrio. Mas a gente se adapta, feito camaleão. Entorta a coluna e faz dela um S, empina o bumbum pra contrabalançar, desloca o quadril... E seguimos em frente... Nos sentindo uma mistura de elefante com pavão, mas seguimos. Meio gordas, meio lindas, rebolando mais do que um urso polar, mas totalmente satisfeitas.

A cabeça... Ah... A cabeça também perde o eixo, ou o pino de centro... Começam a pulular dúvidas como sapos:" Será que eu nasci pra ser mãe?", "Será que vou dar conta?", "Vou saber o que fazer?"... Mas, de fato, não dá tempo de pensar muito sobre elas, pois surgem outros questionamentos mais urgentes, do tipo "Como faço pra cortar as unhas dos pés?", "Como levantar após sentar-me no chão?", "Como lavar a louça se eu não consigo me aproximar da pia?", "Como me manter acordada com esse sono interminável?". 
E, misteriosamente, a gente acaba descobrindo um jeito de resolver cada uma dessas coisas. E segue, meio como cobra-cega, nos embrenhando nessa selva estranha. Meio nativas, meio outsiders. Mas totalmente fascinadas.

 

SEM CONTROLE
Além de nos fazer perder o eixo, a maternidade nos faz perder o controle. Eis que surge um "negocinho" estranho mexendo dentro da gente - mexendo sozinho! -, quase um alien. Sabe quando a lagartixa perde o rabo e ele pula pra lá e pra cá? Essa é a sensação... Uma parte da gente sobre a qual não temos controle. A barriga pula, fica torta, soluça, fica com calombos. Quando deitamos, ela se mexe. Quando apertamos, ela chuta. Quando deitamos, há uma revolução! E esse bichinho extraordinário crescendo dentro da gente nos faz pensar o quão pequenas somos diante da grandeza universo, o quão ignorantes somos diante dos mistérios da vida e o quanto nos preocupamos com coisas que realmente não valem à pena.
Por outro lado, essa "coisinha" mexendo provoca uma estranha, indescritível e deliciosa sensação de "Uau! Tem uma vida dentro de mim... Como eu consegui essa façanha?!". E nos sentimos poderosas, imbatíveis, geradoras de vida, divinais. E seguimos, meio minúsculas, meio enormes. Mas completamente transformadas!

DO AVESSO
E aquele bicho esquisitão chamado maternidade, depois de nos fazer perder o eixo e o controle, nos vira do avesso. Traz das entranhas pra vida uma parte da gente. E é aí, nesse exato momento, que ela nos apresenta o amor maior do mundo! Incondicional, inigualável, eterno... 
E, estando do avesso, você é capaz de mostrar mais o que realmente é, ser mais o que você realmente quer. A vida fica mais linda e leve. A alma voa feito passarinho. "Por que eu não tive um filho antes?", pensamos.
Aquele serzinho frágil, pequeno, inocente preenche o coração, a alma e os dias de forma que eles nunca mais serão os mesmos. É muita emoção... 
E aí, como estamos do avesso, tudo nos afeta emocionalmente. São lágrimas pra tudo, choro à toa, emoções à flor da pele... E não são lágrimas de crocodilo! Qualquer coisinha passa a nos afetar, ficamos muito mais ligadas no mundo ao redor. Uma vez mãe, desloca-se o olhar do nosso próprio umbigo para o mundo. Uóóóó! Liga-se o botãozinho da visão panorâmica da vida!
Muitos pensam que o foco são os filhos. Mas não são só eles. Passamos a nos preocupar mais com o bem estar dos outros, sofrer mais com os problemas dos outros, tentar mais resolver os dilemas dos outros. 
E, mesmo assim, carregando um mundo nas costas, a gente segue. Feito um burro de carga ou uma formiga com uma enoooorme folha nas costas. Passo a passo, sem muitas certezas, mas com determinação... Meio sobrecarregadas, meio leves, mas completamente modificadas.

 

DE PONTA-CABEÇA
E não bastasse nos fazer perder o eixo, o controle e nos virar do avesso, a maternidade vira nossa vida de ponta-cabeça. É tanta coisa pra fazer, tanto pra coordenar, organizar, levar, buscar, alimentar, trocar, ensaboar, ensinar, estimular, repreender... Que não sobra tempo pra respirar. Pra sentar. Pra pensar. Quem dirá pra dormir. Às vezes, tudo que a gente quer são 5 minutos vendo nada na tv, ou fazer xixi tranquila ou comer comida quente. São tantas rotinas que parecem intermináveis e tantas noites que terminam rápido demais... A maternidade rouba nossas forças, suga até mais que o limite, testa nossa paciência. Às vezes, parece que não vamos aguentar... No entanto, em seguida, ela nos mostra que somos muito mais fortes do que pensávamos, do que sequer imaginávamos. Mais que touros! E que o mundo de cabeça pra baixo é mais bonito. Muito mais completo. Muito mais alegre.
Cada olhar, cada sorriso, cada abraço, cada vez que a palavra "mãe" soa da boca de um filho, a gente transborda de amor. E também de gratidão por ter essa (ou essas) criatura por perto, transformando nossas vidas pra muito melhor.
Pra se ter uma ideia, quando ganhamos aqueles tããão almejados 5 minutos de folga, já temos saudades, sentimos falta, não sabemos o que fazer com dois braços livres, com o colo vazio, com eles fora do nosso radar. E, então, seguimos... Meio em pé, meio de ponta-cabeça, de lado ou em diagonal, meio paradas, meio rodopiando, mas totalmente apaixonadas.

 

BICHO ESTRANHO
A maternidade é mesmo um bicho esquisito. Se algo ameaça nossos filhos, nos tornamos leões. Batemos no peito feito gorilas pra defendê-los. Corremos mais do que um lince pra dar conta de todas as nossas atividades. Abraçamos nossos filhos mais forte do que um urso. Os carregamos pra cima e pra baixo feito cangurus. Às vezes, fazemos mais malabarismos que um macaco (com um filho num braço e 475 mil coisas feitas com o outro - já descasquei até manga com a mão só). Rimos feito hienas. Almejamos um momento bicho-preguiça que nunca chega. Vigiamos feito corujas o sono de nossos bebês - e também quando não são mais bebês. Farejamos nossas crias feito cães perdigueiros. Fazemos de tudo pra ter, feito galinhas, nossos pintinhos protegidos debaixo de nossas asas. 
Essa bicharada toda da maternidade juntos dão um monstro. Um amor monstro que levamos no peito! Que supera o crível. Que é capaz do impossível. Êta bicho esquisito!

 

Por Melanie Retz, mãe de três

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As rédeas da vida

06/06/16

Tomar as rédeas da própria vida.

Montá-la em pelo.

Selvagem... Indomada...

 

Agarrá-la pela crina, dando lhe o destino,

Firmando as pernas para não escorregar do propósito.

Do propósito escolhido por você.

 

A cavalgada pode ser longa, árdua,

Pode lhe faltar força nos braços,

Pode lhe fazer tremerem as pernas

Pode lhe faltar o equilíbrio ou o ar... 


Mas, por fim, quando o galope pega o ritmo,

Quando você sente que já não precisa de tanta força,

Que pode afrouxar os dedos da crina sem perder o controle,

Quando você sente na cara o vento da liberdade e o sabor (doce ou amargo) de ter feito as próprias escolhas,

Isso é, no mínimo, fantástico!

 Melanie Retz

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